Gibi Raro
     

COMIC HUNTERS

'Comics hunters' preservam em SP a paixão por histórias em quadrinhos
Parte de um seleto grupo, eles chegam a gastar fortunas para ter em casa as maiores aventuras de seus heróis

Fernando Cassaro


São Paulo também tem seus caçadores de tesouros. Eles não saem pela cidade com chicote e chapéu - como Indiana Jones -, mas integram um grupo pequeno e restrito que se dedica à compra e venda de gibis raros, não sem antes vasculhar edições antigas perdidas em baús, depósitos e porões espalhados por tudo quanto é canto do País. São os comics hunters - caçadores de quadrinhos.

Especialistas em ganhar a vida com o que a maioria das pessoas não dá valor, eles compram gibis antigos - de qualquer gênero, nacional ou importado - e vendem a fanáticos colecionadores que também fazem parte do “clubinho”. Não há reuniões periódicas, mas todos se conhecem e geralmente sabem o que falta na coleção do outro. A propaganda é feita boca a boca. Os contatos são feitos por telefone, e os encontros só ocorrem na certeza de que o material disponível pelo revendedor interessa ao comprador. Preocupados com a segurança do acervo, os endereços só são divulgados aos “iniciados”.

Em São Paulo, estão os dois homens considerados reis dos gibis no País: Idalino Rodrigues dos Santos, de 58 anos, e Geraldo Cachola, de 73. Ambos começaram como colecionadores e entraram no ramo por acaso, revendendo números que tinham em casa. Cachola se apaixonou por gibis na infância. Sem dinheiro para comprar as novas aventuras de seus heróis prediletos, chegou a engraxar sapatos. Levando a paixão adiante, passou a comprar revistas raras da década de 1980 e a revendê-las a preço de ouro. Comprava de tudo. De novidades das bancas a gibis empoeirados de alguma viúva agradecida por se livrar do “entulho” do marido, que só servia para “juntar traça e sujeira”. Assim, começou a ter contato com colecionadores. E o hobby virou negócio. Hoje, como a maioria dos integrantes do clube, Cachola não conta a ninguém quanto vale seu acervo de 100 mil revistas. Mas quem entende e já viu o material afirma que ninguém consegue levá-lo por menos de R$ 500 mil.

Idalino Rodrigues dos Santos, o outro rei do gibi, lê histórias em quadrinhos desde quando aprendeu a identificar as primeiras letras, em Cianorte, interior do Paraná. Começou no ramo em 1965 e hoje tem mais de 200 mil exemplares guardados no terraço de casa, em Lauzane Paulista, zona norte. Quanto valem? A bagatela de mais ou menos R$ 1 milhão. Como colecionador apaixonado, muitas vezes deixou de vender coleção por se ter apegado demais. Hoje, dez anos após sofrer um acidente vascular cerebral (AVC), ele não consegue falar. Com dificuldade para negociar, diminuiu drasticamente as vendas. Por isso, aproveita o dia para organizar o acervo e enviar pelo correio pedidos de gibis que chegam por carta de todo o País. Apesar de não revelar valores, estima-se que consiga ganhar em média R$ 5 mil por mês.

Tanto Cachola quanto Santos são especialistas em gibis nacionais. Os dois trabalham com tudo o que já foi lançado no País desde 1930, incluindo histórias de Pato Donald, Mickey e Maz-zaropi, além das revistas O Guri e Lobinho.

IMPORTADOS
Ao contrário dos reis do gibi, Celso Freixo, de 43 anos, prefere trabalhar com importados. Ele revende histórias em quadrinhos desde 2000 e aprendeu a ler com uma revistinha do Pato Donald. O negócio nasceu quando trocou sua edição número dois do Tio Patinhas por 600 revistinhas dos anos 70 e 80. A partir daí, passou a “girar” o material. “Tenho de saber o valor que o cliente quer gastar e quanto tempo deseja esperar até eu conseguir o exemplar no exterior.” Ao contrário da velha-guarda de revendedores, ele chegou a abrir uma loja de gibis em Pinheiros. Mas manteve a filosofia dos “comics hunters”: só vender a quem realmente é fissurado por histórias em quadrinhos.



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